
ComCeição provavelmente nunca lerá este blog. E eu quero deixar claro que não conheci ComCeição, apenas a imagino.
Eu queria dedicar-lhe este último post sobre a Guaicurus, no qual pretendo falar um pouco das mulheres que vi por lá, por acreditar que ela simboliza um pouco o que é a mulher que faz ponto nos quartos da rua Guaicurus, centro de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, Brasil.
Dedicar a ela, ComCeição, que é exatamente como estava escrito no guardanapo de cozinha grudado na porta do quarto onde trabalha.
Assim como um bairro, uma cidade, um país qualquer, o mundo da Guaicurus possui camadas sociais bem definidas. A informação de que as mulheres que se prostituem nos 16 "hotéis" daquele pequeno pedaço urbano cobram no máximo R$ 20 por programa pode levar à falsa impressão de que são 600 mulheres mais ou menos similares, no físico, na idade, na fortuna e na desgraça.
Mas as castas da Guaicurus são facilmente identificáveis. Em 3 dos 16 "hotéis", cujas mulheres cobram R$ 20 dos clientes, praticamente todas são jovens aparentemente na casa dos 20 anos. Magras, sem defeitos físicos à mostra, a maioria de pele clara. São muitas loiras (como a da última foto deste post), algumas morenas e pouquíssimas negras.
O discurso de alguns donos desses estabelecimentos, até para escaparem da acusação de rufianismo, é o de que qualquer um pode, se quiser e se pagar, se hospedar nos quartos _inclusive você_, mas é difícil não imaginar uma espécie de seleção com base em estereótipos já que o preço da diária nos 16 estabelecimentos não varia de forma significativa, cerca de R$ 60.
Os "hotéis de elite" da Guaicurus possuem um aparato mais visível, com sistema de câmeras pelos corredores, seguranças identificáveis, placas informativas, faxineiras, além de seus quartos e suas instalações serem relativamente novos.
Nos outros 13 hotéis a diversidade, humana e material, é bem maior, e o preço médio, menor _R$ 10. Desses 13, dois ou três estão no mais baixo degrau do "sistema". São identificados pelas próprias prostitutas como destinados àquelas em "fim de carreira", o que não significa que o entra-e-sai de homens seja menor.
Nesses prédios, todos muito antigos, não há sinal de reforma ao longo dos anos, todos estão em acelerado processo de decomposição e seus escuros cubículos lembram mais celas de presídio do que quartos de hotel. Em muito são similares às decrépitas hospedarias de Paris descritas por George Orwell no livro que, em parte, inspirou este projeto. É possível que até os percevejos estejam por lá.
Nas portas dos quartos, há o costume de a mulher se identificar por meio de uma toalha de rosto em que há o nome com o qual se apresenta _ou um guardanapo de papel, como no caso de ComCeição.
E há mulheres que aparentam ter 40, 50, 60 anos ou mais. Na verdade, lá elas constituem a maioria. A raia miúda da Guaicurus, no dizer delas mesmas, atende clientes por R$ 7, R$ 5. Quando lá estive, um rapaz de mochila nas costas, sacolinha de supermercado na mão e vestimenta simplória percorria quarto a quarto propondo o pagamento de R$ 1.
A mulher que ilustra a foto de abertura deste post tem 40 anos, 9 deles como prostituta, e está em um desses "hotéis". Cobra R$ 7.
Chegou à Guaicurus, segundo diz, após o marido tê-la abandonado com uma filha pequena. No começo, lavava roupas para as mulheres do "hotel" e dizia ganhar R$ 5 por dia de trabalho. Em pouco tempo começaria a fazer programas.
"Você é homem e não entende. Quando a gente fecha o olho e pensa: 'É R$ 20 que eu vou levar pra minha filha', a gente faz qualquer coisa."

Mas sua história "não é trágica não", apressa-se em dizer, chamando a atenção para a de colegas, essas sim, trágicas, que diz ter ouvido durante esses nove anos. Drogas, estupros, violência doméstica, essas coisas.
Histórias como a de uma anônima que teve a notícia de sua morte redigida assim por um site de notícias de BH, no último dia 25: "Uma mulher, ainda não identificada, foi encontrada morta na tarde desta segunda-feira (25) em um hotel da rua Guaicurus, no Centro de Belo Horizonte. De acordo com a Polícia Militar, ela foi esfaqueada e o autor do crime fugiu. Perícia e rabecão são aguardados no local."
Algumas mulheres com quem conversei posteriormente disseram que o assassino a esfaqueou para lhe roubar o laptop.
Esse é o baixo meretrício de Belo Horizonte, na rua Guaicurus, centro da cidade. Mais que cinquentenário, tolerado pela polícia e pela lendária sociedade conservadora mineira sem nenhum sobressalto relevante; e dela "escondido" sob a fachada de prédios antigos e opacos, salvo quando surge no noticiário um ou outro episódio de violência. O que, de resto, é hoje comum a qualquer centro urbano.
Mas para que fosse analisada com mais competência, observada, esmiuçada e, por fim, tivesse a alma revelada com os detalhes que lhe dispensaria um pintor renascentista, a Guaicurus mereceria uma visita bem mais qualificada. Uma visita de um João da Ega, por exemplo, com seu olho à Balzac. Um dia talvez alguém a faça.
No domingo, brindo-lhes enfim com o post-epílogo deste projeto.

PONTO 11 DO ROTEIRO: zona do baixo meretrício
ONDE: rua Guaicurus, entre Curitiba e Rio de Janeiro; e rua São Paulo, entre as avenidas Oiapoque e Santos Dumont
O QUÊ? Visita à região que reúne 16 bordéis do baixo meretrício de Belo Horizonte
QUANTO: -
HORÁRIO NO ROTEIRO: de 19h às 21h